
Ayahuasca, segurança e riscos
Afinal, é seguro usar ayahuasca?
Publicado em 11 de setembro de 2025
O interesse pela ayahuasca cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Pessoas a buscam por razões espirituais, por curiosidade, ou pelo potencial terapêutico em condições como depressão resistente e dependência química. Mas afinal, é seguro usar ayahuasca?
Infelizmente você não vai encontrar uma resposta definitiva aqui, pois cada vez fica mais claro que essa resposta tem que ser pensada caso-a-caso.
A ayahuasca combina substâncias psicoativas com potencial de interferir em condições psiquiátricas, tanto de maneira positiva, quanto negativa. O risco de efeitos adversos é aumentado quando usada junto da medicação convencional, pelo risco de interação medicamentosa.
Durante a graduação em medicina, tive a oportunidade de conduzir uma pesquisa para avaliar os riscos associados ao uso de Ayahuasca em contexto religioso. Isso foi motivado pelo interesse no uso de psicodélicos para tratamento de transtornos psiquiátricos, algo muito presente no meu trabalho. O artigo foi publicado na Brazilian Journal of Psychiatry, e este texto é uma tentativa de resumir os resultados do estudo.
Como foi desenvolvida a pesquisa:
Aplicamos um questionário online a usuários de ayahuasca vinculados à União do Vegetal, instituição religiosa brasileira que realiza sessões com ayahuasca em suas práticas. Ao todo, 614 pessoas responderam, uma amostra expressiva para o campo.
Investigamos três eixos principais:
- Efeitos adversos relatados durante ou após as cerimônias
- Diagnósticos psiquiátricos relatados pelos participantes, e sua relação com esses efeitos
- Uso de medicamentos psiquiátricos e possíveis interações
Achados principais
Efeitos adversos mais comuns
Os efeitos adversos mais frequentes foram náusea e vômito, algo esperado. Aqui vale mencionar que o estudo da ayahuasca nos moldes biomédicos não leva em consideração que esses efeitos podem adquirir significado próprio e serem percebidos como benéficos dentro do uso ritual. De toda forma, esses sintomas foram bem tolerados pela grande maioria dos participantes. Uma minoria dos participantes relatou ter sido negativamente afetada por efeitos adversos persistentes, o que aponta para a necessidade de atenção especial.
Em relação à gravidade desses efeitos, cinco indivíduos, ou 0,81% da amostra total, necessitaram de algum tipo de assistência médica devido a um efeito físico persistente, e quatro indivíduos, ou 0,65% da amostra total, necessitaram de assistência por um efeito psicológico persistente. Os efeitos adversos persistentes que levaram os participantes a buscar assistência médica incluíram: irritabilidade, ansiedade, zumbido e náusea. Não houve casos que necessitaram de atendimento de emergência. Esses achados sugerem que, apesar de ocorrerem com frequência, os efeitos adversos foram em sua maioria transitórios, autolimitados e de baixa gravidade, apresentando pouco risco geral.
Diagnóstico psiquiátrico
Cinquenta participantes disseram ter algum diagnóstico psiquiátrico, sendo depressão e ansiedade os mais comuns. Esse grupo apresentou efeitos adversos com maior frequência do que os demais participantes. Isso não significa que pessoas com diagnóstico psiquiátrico não possam usar ayahuasca, mas que esse é um subgrupo que requer avaliação e acompanhamento mais cuidadosos
Esses são detalhes importantes quando se pensa no uso terapêutico da ayahuasca.
Depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), e abuso de substâncias são algumas das condições para as quais a ayahuasca pode ter efeito terapêutico. Inclusive, participantes da pesquisa relataram ter iniciado uso de ayahuasca buscando aliviar sintomas de alguma doença. Ressalto que, enquanto a ayahuasca pode trazer benefícios em muitas situações, condições como transtorno bipolar e esquizofrenia estão sujeitas a um risco muito aumentado de efeitos adversos, casos em que o uso não é recomendável.
Medicamentos psiquiátricos
Trinta e um participantes relataram uso de medicação psiquiátrica. Aqui estava a pergunta mais delicada: haveria aumento de efeitos adversos entre eles?
Os dados não indicaram associação entre uso de medicação psiquiátrica e aumento de efeitos adversos nesta amostra.
É um achado relevante, mas que exige cautela na interpretação. A amostra de usuários de medicamentos era pequena. O contexto era o de uma instituição com práticas estabelecidas de triagem e suporte. E o método dependia de autorrelato, sem verificação dos diagnósticos ou das medicações em uso. Além disso, pode haver um viés de seleção importante, visto que a maioria dos participantes eram usuários regulares de ayahuasca, é de se supor que mantiveram o uso por perceberem benefícios.
O que isso significa na prática
Para o médico que atende pacientes que usam ayahuasca, ou que consideram usá-la, este estudo oferece algumas referências úteis:
As práticas institucionais importam. O contexto de uso faz diferença. Uma cerimônia conduzida com triagem prévia, suporte durante a experiência e integração posterior é estruturalmente diferente de um uso descontextualizado. Os dados sugerem que as práticas da instituição estudada são, em geral, suficientes para prevenir reações exacerbadas.
Diagnóstico psiquiátrico é fator de atenção, não de exclusão automática. A presença de depressão ou ansiedade não proibiu a participação nos rituais, mas esteve associada a maior frequência de efeitos adversos. Isso reforça a importância de avaliação individualizada.
A ausência de sinal de interação medicamentosa não é equivalente a ausência de risco. O estudo não foi desenhado para detectar interações raras ou graves, e a amostra de usuários de medicamentos foi pequena. A prudência clínica permanece necessária.
Por que isso importa agora
O interesse na aplicação clínica dos psicodélicos está em aceleração. Estudos com psilocibina, MDMA e ayahuasca acumulam evidências de eficácia em condições como depressão resistente, TEPT e dependência química; e o Brasil está em uma posição de vanguarda em alguns desses estudos. Ao mesmo tempo, o uso ritual e recreativo cresce fora dos laboratórios, o que precisa ser tratado com cautela.
Existe sim um risco de interações medicamentosa, o que é mais significativo quando se somam substâncias, como é o caso de rituais que envolvem também cannabis, rapé, preparados de jurema-preta, kambô, entre outras medicinas tradicionais indígenas em um curto espaço de tempo, situação que se tornou comum pela venda de "pacotes" de experiências em todo Brasil.
Minha visão
Visualizo um futuro onde psicodélicos e medicinas indígenas possam ser inseridos no repertório terapêutico ofertado pelo SUS, integrando praticas tradicionais a abordagens mais humanas ao lidar com o sofrimento psíquico. Para que isso aconteça é necessário muito cuidado até lá, pois o uso irresponsável dessas substâncias leva a reações adversas, o que aumenta a percepção de risco, e dificulta a aceitação dessas novas medicinas, ainda que algumas não sejam tão novas assim.