O devaneio desadaptativo (maladaptive daydreaming) é um padrão de pensamento com fantasias excessivas e envolventes, em que ocorrem longos períodos de imaginação vívida substituindo outros processos mentais importantes. É chamado desadaptativo por interferir significativamente na vida de quem o vive, causando sofrimento ou prejuízo no funcionamento diário.

Esses devaneios podem ser, por exemplo, de fama, sucesso, ou uma vida ideal, e podem se passar em cenários impossíveis, como num passado ou futuro distantes, eventos históricos, cenas de filmes ou livros. Os devaneios também podem ser mundanos, como imaginar conversas, um melhor desempenho em tarefas, novas habilidades, sucesso nos esportes, boas notas na escola, promoções no trabalho, superação de inseguranças, ou viver com uma personalidade diferente. E os devaneios podem ter conotação negativa, com catastrofização, antecipação de acontecimentos desagradáveis, etc.

Porém, é necessário diferenciar quadros realmente "desadaptativos", pois pensar sobre desejos e fantasias é parte da experiência humana normal.

Pintura de mulher sonhando acordada
Edmund Tarbell, Reverie, de 1913

Um estudo de 2016 menciona indivíduos que passavam mais da metade do tempo em que estão acordados imersos em devaneios. Isso pode ser problemático quando ocorre por longos períodos, pois o tempo dos devaneios se acumula e resulta em anos onde a única experiência vivida é o mundo interior.

Pessoas com devaneios desadaptativos criam narrativas mentais complexas que podem funcionar como uma forma de regulação emocional, mas também estabelecem um ciclo de reforço que aprofunda o isolamento nas narrativas criadas. A imersão na narrativa muitas vezes é acompanhada de gestos, sons e movimentos repetitivos, que também parecem ter função de autorregulação, mas podem causar desconforto ao indivíduo.

É um fenômeno psicológico pouco estudado, seu conceito continua em desenvolvimento, e é pouco difundido no Brasil, sendo que não é reconhecido pelas referências diagnósticas, como o DSM.

Meu olhar

A produção de devaneios é uma característica presente em todos nós, mas mais acentuada em alguns. A supressão completa dessa característica seria trágica, e seu excesso não necessariamente é problemático. Evito rotular variedades da experiência humana como transtornos, e penso que um mundo interno com tamanha riqueza possa ser fonte de criatividade e inspiração, mas esse recurso deixa de ser saudável quando substitui quase completamente o mundo exterior.

Noto que o avanço do conceito é reforçado pelos próprios indivíduos que se percebem sofrendo com a condição, o que fica claro em comunidades como /r/MaladaptiveDreaming/. Por isso, a compreensão e reconhecimento clínico desse quadro são essenciais, seja para definir o devaneio desadaptativo como transtorno em si, ou entendê-lo como característica presente em indivíduos neurotípicos, que pode estar exagerada nos neurodivergentes, pois parece ser o caso de pessoas no espectro autista, ou com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Memes

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