Resumo
O afetivograma é uma ferramenta usada para registrar flutuações do afeto e rastreá-las ao longo do tempo, gerando um mapa do humor. É um dos recursos mais práticos e validados para o acompanhamento dos transtornos de humor, especialmente o transtorno bipolar. Este artigo contém uma explicação detalhada do afetivograma, você também pode acessar um resumo prático de como fazer o seu, com modelo para baixar, clicando aqui.
A utilidade do afetivograma
Quem sofre com transtornos de humor nem sempre consegue perceber como seu humor varia com o passar dos dias, e muitas vezes só se dá conta que as coisas não vão bem ao se encontrar na margem de um episódio depressivo ou de mania. Além disso, pacientes em tratamento nem sempre conseguem transmitir no momento de uma consulta a real intensidade dos episódios, mas apenas um recorte daquele momento. Por exemplo, se durante uma consulta o paciente estiver muito deprimido, talvez ignore que em algum momento desde a consulta anterior teve uma elevação de humor importante, o que é uma distorção comum de memória.
Assim, o afetivograma funciona como um painel de dados que facilita a comunicação. Ele permite visualizar como o humor oscila ao longo dos dias, semanas e meses, o que é essencial para entender o padrão de um transtorno do humor, e ajustar o tratamento com mais precisão.
Um mapa do humor também facilita que o indivíduo desenvolva uma melhor consciência sobre si e suas emoções. Ele ajuda a identificar possíveis estressores, fatores ambientais e gatilhos que influenciaram o humor. Outra utilidade é que, se usado com consistência, o afetivograma pode ser um elemento que reforça a rotina diária, tornando-se um ritual que envolve responsabilidade, reflexão e autocuidado. Tudo isso fortalece a capacidade de prevenção e manejo dos episódios.
O que anotar no afetivograma?
Mapear o humor pode ser uma tarefa mais ou menos complexa, dependendo da disponibilidade e adesão de cada paciente. Por exemplo, seria possível anotar variações de humor dentro de um mesmo dia, emoções e sentimentos relacionados, dados sobre sono, alimentação, ambiente, medicação, socialização, e outros hábitos, o que é útil em alguns casos, mas se torna uma tarefa excessivamente trabalhosa e difícil de interpretar.
O afetivograma pode ser adaptado às necessidades de cada indivíduo, existem muitos formatos possíveis, e nenhum é necessariamente melhor. Alguns registros incluem, por exemplo, a anotação de sintomas psicóticos específicos ou ideação suicida. A ferramenta é útil quando encontra um equilíbrio entre quantidade de dados, precisão e facilidade de uso.
Um gráfico do humor é menos útil quando existem variações muito rápidas e intensas de humor, ou sintomas de mania e depressão ocorrendo ao mesmo tempo, como em casos de ciclagem ultrarrápida e nos episódios mistos. Mesmo assim, o afetivograma pode ser usado para identificar como essas condições evoluem ao longo do tempo.
Você pode criar o próprio afetivograma seguindo o modelo e instruções que encontra aqui.
O que esperar
Mais abaixo você irá encontrar uma escala de humor que vai de 1 a 10. O número 1 representa o humor vivido durante um estado de depressão grave, e o número 10 representa a mania com sintomas psicóticos. É importante reconhecer que oscilações leves de humor são perfeitamente normais e esperadas. Variações na escala entre 5 e 6 são ótimas, e é nelas que esperamos chegar com o tratamento, mas é perfeitamente aceitável viver períodos pouco acima ou abaixo disso.
Os níveis 3 e 7 da escala também são geralmente toleráveis por períodos curtos com acompanhamento regular. A maioria das pessoas com transtorno bipolar gostaria de viver entre os níveis 6 e 7, em que há um humor elevado, mas ainda funcional. Nesse momento a sensação de estabilidade e controle pode levar ao desejo de interromper o tratamento. Esse pode ser um objetivo razoável em alguns casos, mas geralmente é uma armadilha que leva à autossabotagem e piora do quadro.
É esperado que esta ferramenta seja deixada de lado quanto mais o indivíduo se aproxima dos extremos do humor. Realisticamente, pessoas que vivem variações de humor entre 2 e 3, e entre 8 e 9, nem sempre verão sentido em fazer essa anotação. E os extremos, 1 e 10, requerem atenção médica imediata, situação em que o afetivograma pouco importa.
Também é comum durante um episódio de mania não ser capaz de reconhecer a própria situação; por isso, é sempre bom contar com a ajuda de pessoas próximas. Basta conversar com um familiar ou pessoa de confiança, e pedir que ofereça ajuda ao identificar que as coisas não vão bem.
Escala de humor
10 - Mania com sintomas psicóticos
- Delírios, alucinações, ruptura com a realidade
- Perda total da capacidade de julgamento
- Sono extremamente perturbado
- Paranoia
- Agressividade
- Grande risco para si, e para pessoas ao seu redor
9 - Mania
- Contato prejudicado com a realidade
- Diminuição importante da capacidade de julgamento
- Ideias grandiosas, euforia, aceleração psíquica
- Sono muito reduzido, energia inesgotável, agitação
- Grande reatividade emocional, irritabilidade
- Confusão significativa, fala incoerente
- Comportamento impulsivo e perigoso
- Gastos exorbitantes, hipersexualidade, risco de exposição social
- Prejuízo significativo em todas as esferas, incompatível com atividades cotidianas
8 - Hipomania
- Autoestima inflada
- Aumento de energia, diminuição da necessidade de sono
- Pensamento e fala acelerados, impaciência, inquietação
- Novos planos e projetos
- Gastos excessivos, aumento de libido, desinibição
- Distraibilidade, tarefas simultâneas contraprodutivas
- Ansiedade e sensação de perda de controle
- Prejuízo significativo, mas consegue manter atividades rotineiras
7 - Humor moderadamente elevado (Hipertimia)
- Aumento de energia, produtividade e socialização
- Otimismo, fala mais articulada, aumento de energia
- Sem prejuízo significativo, mas tendência a excessos
6 - Humor levemente elevado
- Boa produtividade e socialização
- Otimismo acima do normal
- Funcional e sem risco significativo
5 - Normal (Eutimia)
- Humor equilibrado, clareza mental, perspectiva positiva, rotina estável
4 - Humor rebaixado
- Evita algumas situações sociais
- Dificuldade de concentração
- Maior tendência ao cansaço ou irritabilidade
- Preferência por atividades passivas, que não exigem esforço
- Funcional e sem risco significativo
3 - Depressão leve
- Tristeza, ansiedade, desânimo
- Afastamento social
- Dificuldade de concentração
- Sono excessivo ou insônia
- Aumento ou diminuição do apetite
- Pouco prejuízo às atividades cotidianas
2 - Depressão Moderada
- Aumento de tristeza, ansiedade, desânimo
- Retraimento social, apatia
- Lentificação do pensamento e da fala, problemas de memória
- Irritabilidade, pessimismo
- Dificuldade em executar parte das tarefas cotidianas
- Prejuízo significativo, mas consegue manter atividades cotidianas
1 - Depressão Grave
- Tristeza profunda, ansiedade e desesperança intensas
- Baixa energia, dificuldade em tarefas básicas como higiene e alimentação
- Isolamento social e irritabilidade importantes
- Sentimento de culpa, julgamento prejudicado
- Pensamentos de morte ocasionais, sensação de não haver saída, vontade de sumir
- Prejuízo significativo em todas as esferas, incompatível com atividades cotidianas
- Delírios, alucinações, agitação ou catatonia
- Pensamentos suicidas constantes, com ideação e/ou planejamento de suicídio, possíveis tentativas
Existem outras formas de anotar o humor, mas a escala de 1 a 10 permite usar detalhes suficientes para diferenciar cada nível.
Gráficos de humor
Após preencher o quadro durante um mês será possível traçar o gráfico de humor. Abaixo veja alguns exemplos de gráfico, com possíveis interpretações:

No Exemplo 1 identificamos que o indivíduo iniciou o mês eutímico, e sentiu uma depressão do humor ao longo da primeira semana. O humor se manteve rebaixado durante a segunda semana, mas começou a se elevar, sendo que no final do mês esse indivíduo possivelmente se percebia entrando em hipomania. Apesar disso, por 14 dias consecutivos (entre 14 e 28) seu humor esteve entre 4 e 7, o que pode ser considerável bom, se bem tolerado. Este indivíduo pode identificar acontecimentos ao longo do mês que levaram a essa elevação do humor.

No Exemplo 2 identificamos uma elevação progressiva de humor de um estado de possível depressão leve, até um estado de hipomania. Pode ser o caso de uma pessoa que viveu um longo episódio depressivo, passou a tomar um novo medicamento, e experimentou uma melhora do quadro, mas a elevação do humor continua e põe essa pessoa em risco de uma virada para um episódio de mania.

No exemplo 3 vemos o registro de uma rápida elevação de humor na primeira semana, mas em poucos dias o humor se estabilizou, e assim passou o resto do mês. Pode ser o caso de alguém que recebeu uma boa notícia, iniciou um novo projeto, recebeu uma promoção, ou usou alguma substância psicoativa. Esse evento causou certa euforia, ao perceber a situação, a pessoa tomou medidas para conter a elevação de humor, como redução de estímulos, e com isso voltou a um estado de humor estável.

No exemplo 4 existem variações muito rápidas e intensas do humor, esta é uma condição conhecida como “ciclagem ultrarrápida”. É uma situação pouco provável, pois esta pessoa estaria vivendo uma condição muito difícil, e dificilmente conseguiria usar o afetivograma.
Esses gráficos são fictícios, neles as mudanças do humor são um tanto mais rápidas e aumentadas do que costuma ser observado na realidade, onde a evolução do humor tende a ser mais gradual. Da mesma forma, a percepção de humor elevado ou deprimido por alguns dias não é suficiente para definir que o indivíduo está vivendo um episódio depressivo ou de mania, mas a interpretação é válida para demonstrar a utilidade da ferramenta.
Opinião do autor
Todas as variações discutidas são parte da experiência humana, e essa experiência não pode ser reduzida a números em uma escala. A prática de quantificar e dar nome a experiências subjetivas nem sempre é necessária, mas pode ser muito útil em situações em que a dificuldade de perceber variações do humor e identificar suas causas prejudica a estabilização e bem-estar. E lembre-se: nenhum desses estados é permanente, as sensações são verdadeiras, as experiências são válidas, mas tudo, bom ou ruim, é passageiro.




